- Eu imagino um cientista como um cara louco de cabelo em pé, igual ao Einstein.
Essa será a resposta da maioria das pessoas quando perguntadas sobre como elas imaginam um cientista - e quem me dera! É uma visão certamente exagerada, mas não completamente mentirosa.
A vida de um acadêmico não é simples, mesmo a de um simples aprendiz. Você será cobrado por tudo o que acontece e será visto na sociedade como um preguiçoso vagabundo e muitas vezes até imprestável.
Quando aluno de graduação, por mais que as avaliações dos professores sejam muitas vezes injustas, você será cobrado por cada B conquistado. Na solicitação de bolsas para agências de fomento como, no meu caso, a FAPESP, por mais que seu coeficiente de rendimento esteja entre os 5% maiores, aquele C em Transformações Bioquímicas (e um em Topologia, admito) será motivo de reclamação. Você será considerado, no máximo, um aluno regular e não será um aluno merecedor daquela bolsa que, muitas vezes, te permite continuar correndo atrás do sonho de se tornar um pesquisador.
Na pós-graduação a coisa fica ainda pior, onde as suas notas serão o seu calcanhar de Aquiles, pois na pós-graduação "se espera mais" do aluno. Quando as suas notas não são o problema, eles querem ver as suas publicações, que muitas vezes somente chegarão no final do Doutorado ou até mesmo depois de se tornar doutor. Aí você pode me dizer: ok, Priscila, mas eu tenho publicações! Nesse ponto chega o maldito Qualis e eles vão te dizer que as suas publicações são em revistas de pouca qualidade. B1, B2, A1, não importa. São todas de má qualidade. Mas de novo, Priscila, eu só publico na Nature! Ah, mas aí temos a discussão entre "religiões": a sua área de especialidade é marginal, seu projeto é de uma área de pouco interesse na sociedade científica. E após a pós-graduação, essa loucura continua da mesma maneira... você brigando por um financiamento e eles te colocando de todas as maneiras como um lixo.
A frustração não para por aí, porque na hora de escrever e publicar um trabalho, as coisas continuam mais ou menos do mesmo jeito. Seu resultado vai demorar meses ou anos para ficar pronto. Seu orientador vai te cobrar todo santo dia para que entregue os resultados que nem ele sabe chegar. Você vai perder noites de sono, dias pensando somente nisso e não chegará a resultado algum. A sensação de incapacidade vai durar semanas até passar, sensação esta que aparecerá por diversas vezes durante o período. Afinal, você (e todo o resto do mundo) não sabe como e o que fazer para resolver o seu problema! Depois de estudar todos os artigos possíveis e imagináveis relacionados (ou até sem relação) ao seu problema, nada será encontrado. Até que um dia sai... e você percebe que grande porcaria seu resultado é. Ok, ok. Estou sendo muito extremista. Muitas vezes seus resultados serão bons, mas o trabalho e a frustração dos anos "perdidos" descobrindo algo novo será muito grande.
O próximo passo é a saga da publicação do trabalho. O revisor achando que você tem a obrigação de usar o método A enquanto você usou o B. Faz diferença? Não, o resultado é igual! Ou então você recebe um parecer te "obrigando" a colocar coisas um tanto óbvias/absurdas e, quando não feito, seu artigo é rejeitado. A pior situação que me aconteceu até hoje foi ter meu trabalho rejeitado por ele ser muito bom para aquela revista. Alguém consegue me explicar como é que diabos isso acontece?
Poxa, mas de que vale então passar a vida estudando para se tornar um acadêmico? Devo admitir que passei muito tempo me questionando isso e por muito pouco não larguei tudo para, literalmente, trabalhar num Banco. A sociedade brasileira, inclusive, cobra-nos muito por supostamente gastar dinheiro público e "não dar retorno". É árdua a missão de desenvolver a ciência num país que não dá a mínima para o que está sendo feito.
A resposta que hoje eu tenho é que todo segundo gasto em ciência, seja em pesquisa ou em leitura, vale a pena. Vale tanto pelo conhecimento obtido quanto pelas oportunidades únicas que surgem durante todo o processo, desde a iniciação científica. Primeiramente, é indescritível a oportunidade de conhecer pessoas diferentes, pessoas que muitas vezes influenciaram o seu próprio trabalho. Oportunidade de aprender sobre coisas novas ou até mesmo se interessar e - por que não? - engajar uma parceria, seja ela de orientação ou de pesquisa. Essa experiência social é uma das coisas mais preciosas que a vida acadêmica proporciona.
Outro ponto é a possibilidade de conhecer novos lugares. A vida dentro de uma universidade muitas vezes torna a pessoa alienada em termos de não conhecer realidades diferentes em locais diferentes. A consequência mais óbvia disso é a ausência de um pensamento crítico mais aguçado e presente. A parte prática boa de conhecer outros lugares são as viagens para os diversos locais aonde eventos acontecem. Por exemplo, eu escrevo este post de Vitória, capital do nosso querido Espírito Santo, onde apresentei um trabalho no III CMAC Sudeste. Já estive em Águas de Lindóia (SP), Uberlândia (MG), Natal (RN), Waterloo (Canadá) e Madri (Espanha), sem contar com os diversos encontros locais que participei. Realizei dois sonhos em um ao ir ao Canadá e depois ao aproveitar para passar o final de semana em NY. Estive no Top of the Rock, conheci o Metropolitan Opera, estive na sede da Juilliard e da NYU, passei minha tarde de domingo no Central Park, após uma breve visita a State Island. Passei dias agradabilíssimos em Madri e, artisticamente falando, tive a experiência mais impressionante possível ao conhecer o famoso quadro de Pablo Picasso relatando a guerra civil espanhola: Guernica. Sempre com muita dedicação e quase nada de brilhantismo (não, ser brilhante não é necessário para se tornar doutor), eu pude aproveitar cada um desses momentos e desfrutar momentos de turista enquanto trabalhei arduamente.
Na questão de conhecer pessoas, conheci pessoas como Stephen Anco, aquele cujo livro me iniciou nas Simetrias de Lie, Maria Gandarias, Khalique Masood e os medalhistas Fields Cedric Villani e Charles Fefferman. Além disso, conseguimos colaborar com o professor Anco num trabalho que será publicado em breve no Journal of Mathematical Physics. Volto a dizer que essas coisas são conquistadas basicamente com muito esforço, sem precisar ser um gênio.
A maior conquista, todavia, foi a indicação do meu trabalho, ainda no mestrado, ao prêmio de melhor desenvolvimento da Matemática para doutorandos. Representei meu país - com muito orgulho - da melhor maneira possível na 10th AIMS Conference em Madri, 2014. Apesar de não ter conquistado o prêmio ou até mesmo uma menção honrosa, foi uma das melhores sensações que eu já senti na vida. Eu aprendi muito, conheci outas opiniões sobre o que estava fazendo, recebi dicas sobre aplicações possíveis do que estava estudando e estive muito próxima do meu "futuro novo orientador" (esse tópico abordarei em breve).
Desta forma, sempre haverá frustrações e muitas vezes elas te trarão a vontade de desistir. Mas o trabalho árduo trará recompensas muitas vezes quase impossíveis quando em alguma outra área. Mais do que isso, vale a pena batalhar pelo desenvolvimento da nossa ciência não somente pelas recompensas explícitas, mas também pelo prazer de ver pessoas se interessando pelo que faz, pela satisfação de ajudar, de alguma forma, o crescimento e auto-conhecimento da ciência